Quando Rayssa Leal deslizou pela última vez no Parque Cândido Portinari durante a final da World Street Skateboarding ChampionshipSão Paulo, o silêncio do público foi quebrado apenas pelo som de um joelho se torcendo. Aos 18 anos, a brasileira, que chegava como bicampeã mundial e favorita ao título, terminou em quarto lugar — e foi levada para os cuidados médicos com a perna direita inchada, após uma queda brutal na tentativa final. Enquanto isso, no pódio, três japonesas levantavam os braços: Ibuki Matsumoto com ouro, Nanami Onishi com prata e Coco Yoshizawa com bronze. O domínio japonês foi esmagador. E o Brasil, que tinha 34 atletas inscritos, viu sua maior esperança cair — literalmente — antes da linha de chegada.
Um pódio feito no Japão, e uma brasileira que não desistiu
A final feminina, realizada em 8 de março de 2026, foi um show de precisão técnica e coragem. Ibuki Matsumoto fechou com 156.59 pontos, executando uma sequência de rails e ollies que parecia saída de um videogame. Nanami Onishi veio logo atrás com 146.36, e Coco Yoshizawa, campeã olímpica em Tóquio 2020, garantiu o bronze mesmo após uma queda que lhe rendeu apenas 36,19 pontos em uma tentativa. Rayssa, por sua vez, tinha feito 79,83 na primeira tentativa — um smith de costas que a colocou temporariamente em segundo lugar — e 63,71 na corrida. Mas para subir ao pódio, precisava de pelo menos 81,32 pontos na última manobra. Em vez disso, teve 11,80. E o joelho direito, que ainda estava em recuperação de uma lesão anterior, sofreu uma nova avaria. A cena foi emocionante: Letícia Bufoni, sua companheira de equipe, a segurou pelo braço enquanto o público de São Paulo aplaudia de pé. Ninguém gritou. Todos sabiam: isso era mais do que uma competição.Quem foram os outros brasileiros?
Além de Rayssa, a delegação brasileira incluía nomes como Pâmela Rosa, Gabi Mazetto, Kelvin Hoefler e Felipe Gustavo. Mas apenas ela avançou à final. Gabi Moreto, outra promessa, ficou em 12º com 102,22 pontos. Nos homens, o campeão foi o japonês Toa Sasaki. O brasileiro Wallace Gabriel foi o mais bem posicionado entre os nacionais, com 145,41 pontos nas semifinais — o segundo melhor da fase — mas não avançou. Outros como Gabryel Aguilar (7º, 104,91) e Ivan Monteiro (51,48) não chegaram nem perto da final. O clima no parque era de tensão: os semifinais masculinos foram interrompidos no sábado por ventos fortes, e só retomados no domingo às 8h40. A organização, da World Skate em parceria com a Skate Total Urbe (STU), teve que ajustar cronogramas em tempo real. O evento, que pela primeira vez incluiu a Copa do Mundo de Paraskate, atraiu cerca de 400 atletas de 38 países.
Rayssa: de Paris à São Paulo — uma jornada de resiliência
O que muitos esquecem é que Rayssa Leal não chegou aqui por acaso. Em 7 de dezembro de 2025, no Ginásio do Ibirapuera, ela se tornou a primeira e única quatro vezes campeã da Street League Skateboarding (SLS) Super Crown. Na época, chorou ao dizer: "Não tenho palavras para expressar meus sentimentos. Em Paris, não passei para a final. Era a meta do ano. Estou feliz. É algo sobrenatural." Aquilo não era apenas uma vitória. Era redenção. Depois de falhar na classificação para os Jogos Olímpicos de Paris, ela voltou com mais força. E em São Paulo, mesmo ferida, fez o que poucos conseguem: manter a calma, a técnica e a dignidade. O que ela perdeu no pódio, ganhou em respeito.Por que isso importa para o futuro do skate brasileiro?
Este campeonato não foi só uma competição. Foi um termômetro para os Jogos de Los Angeles 2028. Cada ponto aqui conta na classificação olímpica. O fato de que três japonesas dominaram o pódio, enquanto o Brasil — país com maior número de praticantes de skate no mundo — teve apenas uma finalista, levanta questões. Será que o modelo de treinamento brasileiro está desatualizado? Será que a falta de estrutura técnica e fisiológica está nos deixando para trás? Enquanto as japonesas têm equipes de fisioterapia, nutricionistas e psicólogos dedicados, muitas atletas brasileiras ainda treinam em calçadas e dependem de patrocínios improvisados. Rayssa, apesar de ter apoio, não teve acesso a um protocolo de recuperação completo antes da final. Isso não é só má sorte. É sistema.
O que vem agora?
Rayssa Leal já foi confirmada para a seleção brasileira de skate para os Jogos Pan-Americanos de 2027. Mas seu retorno à competição dependerá da evolução da lesão no joelho — e da decisão médica. Enquanto isso, a World Skate anunciou que a próxima edição da World Street Championship será em 2027, em Osaka, Japão. O país asiático, que já domina o skate feminino desde 2021, não parece ter intenção de ceder espaço. Já o Brasil precisa de um plano. Não de mais campeonatos. Mas de mais investimento em ciência do esporte. Porque, como disse uma treinadora no parque: "O skate não é só correr e saltar. É pensar, recuperar e planejar. E isso, aqui, ainda é um luxo."Frequently Asked Questions
Por que Rayssa Leal não conseguiu subir ao pódio mesmo com uma boa primeira tentativa?
Apesar de ter feito 79,83 pontos em sua primeira tentativa — um dos melhores resultados da final —, Rayssa precisava de pelo menos 81,32 pontos na última manobra para garantir o bronze. Com a queda na tentativa final, ela marcou apenas 11,80, o que a colocou em quarto lugar. Além disso, as três japonesas no pódio tiveram desempenhos mais consistentes: Ibuki Matsumoto teve duas tentativas acima de 70, e Coco Yoshizawa mesmo com uma queda, manteve a técnica em outras manobras. A diferença entre o bronze (145,02) e o quarto lugar (143,54) foi de apenas 1,48 pontos — menos que um único giro bem executado.
Qual é a importância do campeonato para a classificação olímpica de 2028?
Este evento foi a última etapa da temporada 2025 da World Skate, e todos os pontos conquistados contam diretamente para o ranking olímpico rumo aos Jogos de Los Angeles 2028. Apenas os 10 melhores colocados em cada categoria (masculino e feminino) garantem vaga direta na seleção nacional. Rayssa, mesmo em quarto, acumulou pontos valiosos, mas a dominância japonesa — com três atletas entre as cinco primeiras — fortalece o posicionamento do Japão como principal potência no skate feminino. O Brasil, que não tem nenhuma mulher entre as cinco primeiras do ranking mundial, precisa de resultados mais consistentes para garantir vagas.
O que mudou no skate feminino desde a última edição do campeonato?
Desde 2024, o nível técnico das atletas femininas subiu exponencialmente. As japonesas, em especial, passaram a dominar manobras de alta dificuldade com precisão quase perfeita: o smith flip, o backside lipslide em alta velocidade e o rail transfer com 360 graus viraram padrão. Além disso, a estrutura de treinamento delas — com análise de vídeo diária, fisioterapia preventiva e até estudo de biomecânica — contrasta com a realidade de muitas atletas brasileiras, que ainda dependem de treinos improvisados. O resultado? Em 2026, 70% das pontuações acima de 140 pontos foram de japonesas. Em 2022, eram apenas 30%.
Rayssa Leal é a única brasileira a ter conquistado títulos mundiais e olímpicos?
Sim. Rayssa Leal é a única atleta brasileira — e uma das poucas no mundo — a conquistar dois títulos mundiais da World Skate (2022 e 2024), duas medalhas olímpicas (prata em Tóquio 2020 e bronze em Paris 2024) e, ainda, ser quatro vezes campeã da Street League Skateboarding Super Crown. Sua trajetória é única. Nenhum outro skatista brasileiro, homem ou mulher, tem esse currículo. Por isso, sua lesão em São Paulo foi mais do que uma derrota: foi uma ameaça ao legado de uma geração.